Quase todo psicólogo sabe de cor quanto cobra pela sessão. Bem menos gente sabe quanto custa a hora que não é cobrada. É essa conta que decide se o consultório se sustenta.
Este texto não vai dizer que manter um consultório custa X reais por mês. Esse número não existe: depende de cidade, de sala própria ou coworking, de quantos dias você atende. Publicar uma média inventada seria pior que não publicar nada, porque viraria referência para alguém.
O que dá para fazer é montar a lista completa, inclusive as linhas que costumam ficar de fora, e mostrar como transformar isso em custo por sessão.
As cinco famílias de custo
O espaço
Aluguel ou diária de coworking, condomínio, água, luz, internet, limpeza, café. Para quem atende só on-line, esta família encolhe mas não zera: internet melhor, uma cadeira que aguente seis horas, um fundo que não exponha a casa.
As obrigações da profissão
Anuidade do CRP. É regional, e os valores de 2026 ficaram em torno de R$ 550 a R$ 640 para pessoa física, com desconto para pagamento à vista em janeiro. Vale conferir o valor exato no CRP da sua região, porque a variação entre regionais é real.
Supervisão. Para quem está em formação ou mantém supervisão continuada, é um custo mensal recorrente, e frequentemente o maior desta família.
Formação. Congressos, cursos, livros, associações.
As ferramentas
Sistema de gestão, telefone, ferramenta de videochamada, armazenamento. Individualmente parecem baratas; somadas, viram uma linha respeitável.
Impostos e previdência
Carnê-leão sobre o que entra, contribuição previdenciária e o contador, que vale a pena ter.
As invisíveis
Esta é a família que ninguém soma, e é a que mais distorce a conta.
Faltas e cancelamentos em cima da hora. Buracos na agenda entre um paciente e outro. Férias, as suas e as do paciente. Semanas de doença. Feriados que caem sempre na mesma terça. O mês de janeiro.
Nenhuma dessas linhas aparece numa planilha de despesas, mas todas custam dinheiro, porque reduzem o número de sessões que efetivamente entram no mês.
O erro que trava a conta: o denominador
Aqui está o ponto que muda tudo.
A tentação é dividir o custo mensal pelo número de horas que você trabalha. Só que a hora que sustenta o consultório não é a hora trabalhada. É a hora faturada, e entre uma coisa e outra existe um abismo.
Some o que consome tempo e não gera receita: escrever evolução depois de cada sessão, preencher anamnese, montar e remontar agenda, cobrar quem não pagou, emitir recibo, redigir declaração ou relatório, ir à supervisão, estudar o caso, responder mensagem entre sessões.
Uma jornada de quarenta horas raramente vira quarenta sessões cobradas. Se viram vinte e cinco, o custo por sessão é quase o dobro do que a divisão ingênua sugeriria.
Por isso a conta correta é simples de enunciar e desconfortável de fazer:
custo mensal total ÷ sessões efetivamente pagas no mês = custo real por sessão
Quem nunca fez essa divisão costuma se assustar com o resultado. É exatamente esse susto que orienta a decisão de preço, de quantidade de atendimentos e de política de falta.
A boa notícia: parte disso reduz seu imposto
Aqui entra algo concreto e verificável, e que muita gente deixa na mesa.
O profissional autônomo pode escriturar despesas no livro-caixa e deduzi-las da base de cálculo do carnê-leão. Segundo as orientações da Receita Federal, considera-se despesa de custeio aquela indispensável à atividade profissional. A lista inclui nominalmente:
- aluguel de sala comercial;
- água, luz e telefone;
- material de expediente e de consumo;
- contratação de pessoal.
Somam-se a elas duas categorias que costumam surpreender:
- propaganda relacionada à atividade profissional, quando escriturada e comprovada;
- congressos e seminários necessários à atividade e à especialização, incluindo taxa de inscrição, compra de publicação e hospedagem.
E o que não entra
A Receita é explícita quanto ao que não é dedutível no livro-caixa: transporte, locomoção, combustível, estacionamento, manutenção de veículo, seguro e IPVA, com exceção do representante comercial autônomo.
Ou seja: o deslocamento até o consultório é custo real do seu bolso, mas não reduz imposto.
Outro detalhe que gera confusão: a contribuição previdenciária do próprio contribuinte não vai no livro-caixa, porque já é dedutível no cálculo do carnê-leão. Lançar nos dois lugares é erro.
O limite
A dedução das despesas do livro-caixa é limitada ao valor do rendimento recebido no mês pela prestação de serviços. Ela reduz a base de cálculo até zerá-la, mas não gera crédito a partir do nada.
Por que registrar despesa não é burocracia
Muita gente anota receita e ignora despesa, porque despesa "não é dinheiro entrando".
Só que, para quem atende como pessoa física, cada despesa dedutível devidamente registrada e comprovada diminui a base sobre a qual o imposto incide. Não registrar é, na prática, pagar imposto sobre dinheiro que você não ganhou, porque ele já tinha ido embora em aluguel, luz ou material.
E há o outro lado: sem histórico de despesa, não existe custo por sessão. Sem custo por sessão, o preço é chute.
Uma referência que existe e é pouco usada
O CFP publica uma Tabela de Honorários, disponível no site do Conselho, na área de Serviços. Ela não é tabelamento nem piso obrigatório, e não substitui a sua conta, mas serve como parâmetro externo quando a dúvida é se o preço praticado está muito fora da curva.
Isto não é orientação contábil
Este texto relata categorias de custo e o que as orientações da Receita Federal dizem sobre dedutibilidade no livro-caixa. Ele não cobre a sua situação específica, não trata de pessoa jurídica, não calcula alíquota e não substitui profissional habilitado.
Procure um contador. Para quem atende como autônomo, é provavelmente a despesa que mais se paga sozinha.
Declaração de interesse. A Vínculos oferece uma plataforma de gestão de consultório que inclui controle de despesas e acompanhamento financeiro. Somos, portanto, parte interessada no assunto deste texto. Por isso ele não apresenta nenhum valor médio de mercado, não sugere quanto você deveria cobrar e se limita a descrever categorias de custo e a citar as regras públicas de dedutibilidade.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um contador.
Fontes
- Brasil. Receita Federal. Carnê-leão: deduções. https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/meu-imposto-de-renda/pagamento/carne-leao/deducoes
- Brasil. Receita Federal. Livro Caixa: despesas dedutíveis da receita da atividade. https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/conformidade-tributaria/cartorios/visao-integral-do-segmento/orientacoes-tributarias-de-interesse-do-segmento-cartorios/livro-caixa-2013-despesas-dedutiveis
- Conselho Federal de Psicologia. Tabela de Honorários. https://site.cfp.org.br/servicos/tabela-de-honorarios/
- Valores de anuidade 2026 divulgados pelos Conselhos Regionais de Psicologia; consulte o CRP da sua região para o valor aplicável.